Chefe de design da Jaguar sai de cena: o navio está a afundar-se ou o rottweiler limita-se a ir embora?
Gerry McGovern vai criar uma consultora. Uma forma polida de dizer que o homem que transformou o Range Rover de ferramenta agrícola em símbolo de luxo decidiu afastar-se precisamente quando a Jaguar prepara a sua reinvenção totalmente elétrica.
A Jaguar Land Rover confirmou que o seu principal responsável criativo vai sair no final de março. Ainda em dezembro, porta-vozes da empresa garantiam que os rumores sobre a saída de McGovern eram maledicência. Afinal, não eram rumores, mas sim a verdade à espera de um pequeno acerto fino, tal como a suspensão do mais recente Defender.
McGovern nunca foi apenas um designer. Convenceu o mundo de que pagar uma soma de seis dígitos por um automóvel que nunca pisaria terra fazia todo o sentido. Quando entrou em 2004, acabaria por dar forma ao Range Rover Evoque, um modelo tão bem-sucedido que até compradores com uma ideia muito vaga do que estava debaixo do capot queriam ter um.
Sob a sua supervisão nasceram o Defender renascido, o Velar e os enormes Range Rover que hoje ocupam entradas de casas de West London até aos bairros mais abastados de Tallinn. Fez do design o único argumento de venda consistentemente fiável da JLR. Quando a engenharia falhava, os carros continuavam a parecer valer uma fortuna no stand.
O último ato de McGovern foi a nova identidade da Jaguar, juntamente com o concept Type 00. Trata-se da máquina cor-de-rosa, de vincos marcados, apresentada como o futuro messias da marca. Os críticos viram algo mais próximo de um projeto artístico caro, uma forma de disfarçar a realidade desconfortável de que a Jaguar continua a ter dificuldade em definir o seu público para os elétricos.
McGovern tentou vender a ideia de alta-costura elétrica. Agora sai de cena precisamente quando chega o momento de receber os aplausos.
O timing é digno de um Óscar. O primeiro novo GT elétrico da Jaguar, com preço acima de 100.000 libras, cerca de 117.000 euros, está à espera de entrar em palco. Promete números de autonomia que soam quase lunares. E é exatamente nesta altura que McGovern decide lançar uma consultora. A sensação é a de um realizador que abandona o plateau no instante em que o ator principal abre a boca para a primeira fala.
Os números pouco fazem para acalmar os nervos. O mais recente relatório trimestral lê-se como um argumento de filme de terror. A receita caiu, as vendas recuaram e as margens desceram para menos 6,8 por cento. A JLR aponta para ciberataques e turbulência nos mercados, mas McGovern é demasiado experiente para não perceber o ambiente. Mais vale sair sob o arco do triunfo enquanto o champanhe ainda corre do que ficar até alguém começar a varrer os vidros partidos.
Será que a nova Jaguar conseguirá renascer das cinzas sem o seu principal arquiteto? Talvez. Para já, fica a ideia de que McGovern foi o único a perceber que as luzes se tinham apagado e escolheu sair antes de alguém pegar num fósforo.