Ford chama 440 mil carros e expõe fragilidades
A Ford, marca que construiu a sua reputação com músculo industrial, volta a tropeçar no essencial. Dados recentes de Dearborn confirmam que quase 440 mil veículos nos Estados Unidos terão de regressar às oficinas devido a problemas que vão desde parafusos de suspensão soltos até componentes instáveis nas baterias.
Não se trata de uma atualização de software feita à distância. Em muitos casos, é mesmo preciso recorrer à velha chave de bocas.
Modelos e falhas
O recall divide-se em vários pontos críticos.
Ford F-150 Lightning, anos 2024 a 2025
Em algumas pick-ups elétricas, a porca da rótula do braço de controlo superior pode afrouxar devido à vibração. Se isso acontecer, a roda pode perder ligação adequada à direção. As consequências são tão graves quanto parecem.
Ford Escape PHEV e Lincoln Corsair PHEV, anos 2020 a 2024
Um defeito no separador das células da bateria pode provocar curtos-circuitos internos. Quando o sistema deteta irregularidades, o software pode desligar completamente o grupo motopropulsor. No trânsito real, o veículo transforma-se num obstáculo imóvel.
Ford Explorer, ano 2025
Uma falha no software do módulo de controlo do grupo motopropulsor pode causar reinicializações inesperadas. Em certos cenários, isto pode afetar a função de estacionamento da transmissão, criando risco de movimento involuntário do veículo.
Para muitos proprietários, a solução passa por uma visita física à oficina. No caso da F-150 Lightning, os técnicos têm de verificar e apertar corretamente os parafusos da suspensão. Isto é o básico do controlo de qualidade mecânico.
Um problema de qualidade que não desaparece
O CEO Jim Farley prometeu em 2020 que a qualidade seria a prioridade máxima da Ford. No entanto, os números dos recalls continuam a subir. Em 2025, a marca bateu novos recordes de recolhas nos Estados Unidos.
Isto não é apenas zelo pelo cliente. A National Highway Traffic Safety Administration já multou a Ford em 165 milhões de dólares por respostas lentas a recalls. O escrutínio regulatório apertou.
O impacto financeiro é notório. Os custos de garantia e recalls subiram mais de 20% em 2024, atingindo cerca de 6 mil milhões de dólares. Capital que podia servir para lançar novos modelos, mas que é gasto a corrigir defeitos evitáveis.
Pressão sobre um modelo de negócio já fragilizado
A Ford já enfrenta dificuldades na eletrificação. Há relatos de que a marca perde milhares de dólares em cada veículo elétrico vendido. Quando os problemas de qualidade afetam tanto elétricos como modelos a combustão, a pressão financeira agrava-se.
Cada recall não só consome dinheiro como mina a confiança na marca. Em segmentos como pick-ups elétricas e híbridos plug-in, a confiança ainda está a ser construída. Notícias repetidas sobre suspensões soltas ou riscos nas baterias tornam essa tarefa mais difícil.
Para quem pondera entre a Ford e a concorrência, estes 440 mil veículos são mais do que um número. São um lembrete de que inovação sem execução vale pouco.
Num mercado onde a concorrência aperta a cada trimestre, o rigor mecânico básico não devia ser o elo mais fraco. Mas para a Ford, continua a ser uma lição cara.