A ascensão dos elétricos da BYD esbarra numa questão de segurança
<p>Isso não significa automaticamente sanções. Também não prova que a BYD esteja a fabricar equipamento militar para o exército chinês. Mas significa que um dos fabricantes de carros elétricos mais importantes do mundo enfrenta agora uma preocupação oficial de segurança dos Estados Unidos.</p><p>Para a BYD, isto não é embaraçoso apenas porque o Pentágono poderá, no futuro, restringir relações com empresas da lista. A questão é mais ampla. A BYD já não é apenas uma fabricante de automóveis. É uma empresa de baterias, de eletrónica de potência, de software, de dados, de tecnologia de carregamento e um interveniente global na cadeia de abastecimento. Empresas deste tipo atraem cada vez mais a atenção das agências de segurança, porque o automóvel moderno já não é apenas transporte. É uma plataforma de dados ligada à rede.</p><p>O que o Pentágono está realmente a dizer</p><p>A lista 1260H do Departamento de Defesa dos EUA destina-se a identificar empresas chinesas que Washington considera ligadas à modernização militar da China. No caso da BYD, o documento público não afirma que a empresa produza mísseis, tanques ou sistemas de armas. A acusação é diferente e, politicamente, mais delicada.</p><p>A justificação do Pentágono diz que a BYD está ligada, direta e indiretamente, ao SASAC, o supervisor de ativos estatais da China, e indiretamente ao Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, o MIIT. Descreve também a BYD como contribuinte para a fusão civil-militar, citando os seus laços com o MIIT e a sua localização, ou associação, a uma zona empresarial de fusão civil-militar.</p><p>A formulação é importante. Washington não está apenas a dizer que a BYD está próxima do Estado chinês, algo que se pode afirmar, em certa medida, de muitas grandes empresas estratégicas na China. A alegação dos Estados Unidos é que a posição tecnológica, industrial e institucional da BYD pode contribuir para a capacidade industrial de defesa da China.</p><p>Com base em material público, porém, a prova continua limitada. O Pentágono apresenta a sua conclusão, mas não divulga a base de informação ou processual completa por detrás dela. Trata-se, portanto, de uma avaliação de segurança nacional, não de um conjunto de provas plenamente testado em tribunal.</p><p>A BYD rejeita a designação</p><p>A BYD disse à Reuters que se opõe firmemente a ser designada como empresa ligada ao exército chinês e que recorrerá aos meios administrativos e legais disponíveis para proteger os seus direitos e interesses. É uma resposta esperada. Uma cotada deste tamanho não pode simplesmente aceitar um rótulo que pode afetar investidores, parceiros, compras públicas e a sua reputação.</p><p>É também importante notar que a lista 1260H não é uma lista convencional de sanções. A BYD não passa, de um dia para o outro, a ser uma marca automóvel proibida na Europa. Continua a poder vender carros, abrir concessionários e servir clientes. Mas, em matéria de política de segurança, listas destas funcionam muitas vezes como um sinal de alerta precoce. Primeiro vem a lista. Depois podem surgir restrições de contratação pública. A partir daí, bancos, seguradoras, autoridades públicas e parceiros comerciais começam a perguntar se uma eventual vulnerabilidade tecnológica e política vale a poupança oferecida por um produto chinês mais barato ou mais atrativo.</p><p>Porque é que a BYD não é uma fabricante de automóveis convencional</p><p>As questões de segurança em torno da BYD não surgem apenas das origens chinesas da empresa. Surgem também do que a BYD controla hoje.</p><p>A empresa produz automóveis, baterias, eletrónica de potência e muitos componentes essenciais por conta própria. Essa integração vertical tem sido a sua maior vantagem competitiva. Os fabricantes europeus e americanos têm de comprar tecnologia de baterias cara, negociar com fornecedores e contornar heranças industriais mais lentas. A BYD constrói internamente grande parte da cadeia de valor. Isso torna-a mais barata, mais flexível e, do ponto de vista estratégico, muito mais importante.</p><p>Um automóvel elétrico moderno não é apenas uma bateria e uma carroçaria. É um sistema orientado por software que recolhe dados e usa câmaras, radar, conetividade móvel, navegação, diagnósticos remotos e atualizações de software remotas. Para o cliente, isso pode ser útil. Para uma agência de segurança nacional, pode ser um problema.</p><p>Se um veículo troca constantemente dados de diagnóstico, utilização e localização com o fabricante e recebe atualizações remotas regulares, já não é apenas um veículo. Passa a fazer parte da infraestrutura digital. A questão não é apenas se um determinado automóvel é bom ou mau. É quem controla os dados, onde esses dados são processados e sob a jurisdição de que país está o fabricante.</p><p>As regras dos EUA para veículos ligados à rede mostram que Washington já não trata a questão dos carros chineses apenas como matéria de política industrial ou de concorrência nas importações. O foco mudou para o software, a conectividade, os fluxos de dados e o acesso remoto. Isso transforma o caso da BYD de uma história da indústria automóvel numa questão mais ampla de tecnologia e segurança.</p><p>A Europa tem visto a BYD sobretudo como uma ameaça económica</p><p>A União Europeia não tratou a BYD no mesmo enquadramento que o Departamento de Defesa dos EUA. A principal preocupação europeia tem sido, até agora, a concorrência e os subsídios. A Comissão Europeia concluiu que a cadeia de valor dos veículos elétricos chineses beneficia de apoio estatal injusto, prejudicando os fabricantes europeus. A BYD recebeu uma tarifa adicional mais baixa do que algumas outras marcas chinesas, mas a taxa de 17 por cento continua a mostrar que Bruxelas não vê o sucesso dos elétricos chineses apenas como resultado de melhor engenharia.</p><p>Essa é a primeira camada do debate sobre a BYD, a pressão económica. Um fabricante chinês entra na Europa com preços que a indústria europeia não consegue igualar sem uma reestruturação dolorosa.</p><p>A lista do Pentágono acrescenta uma segunda camada, a segurança. A questão já não é apenas saber se a BYD é barata demais. É saber se o ecossistema tecnológico da BYD pode tornar-se uma dependência estratégica para a Europa.</p><p>Isso não significa que a Europa deva copiar a política americana. O mercado automóvel europeu, a indústria e os interesses dos consumidores são diferentes. Mas seria ingénuo pensar que a avaliação de Washington não vai influenciar o debate europeu. Se o Departamento de Defesa dos EUA tratar a BYD como uma potencial peça da fusão civil-militar, a Europa não pode limitar a discussão a quantos euros mais barato é um elétrico chinês do que um modelo da Volkswagen, Renault ou Stellantis.</p><p>O consumidor vê o preço, o Estado tem de ver a dependência</p><p>O rápido crescimento da BYD na Europa não se baseia apenas no apoio do Estado chinês ou em manobras geopolíticas. Baseia-se também em automóveis que fazem sentido para muitos compradores. O consumidor europeu vê um preço competitivo, equipamento generoso, uma boa garantia, autonomia decente e uma empresa que controla grande parte da sua própria tecnologia de baterias. Quem compra um automóvel familiar normalmente não pensa primeiro na lista 1260H do Departamento de Defesa dos EUA. Olha para o preço, a prestação mensal, a autonomia e as condições da garantia.</p><p>Os Estados europeus, as autarquias e as empresas de infraestruturas críticas não podem ter uma visão tão estreita. Se veículos ligados à rede forem usados por polícia, serviços de socorro, entidades ligadas à defesa, operadores de infraestruturas energéticas, portos, aeroportos, frotas de transportes públicos ou organismos governamentais, a origem, o controlo do software e o tratamento de dados tornam-se muito mais importantes. O mesmo se aplica às redes de carregamento, ao armazenamento de baterias, ao software de gestão de frotas e às plataformas de dados.</p><p>A força da BYD está precisamente em poder oferecer um ecossistema tecnológico completo. Do ponto de vista da segurança, essa mesma força pode tornar-se uma dependência. Se um fabricante controla o veículo, a bateria, o software, a conectividade e parte da plataforma de serviços, a questão já não é apenas o automóvel. É o acesso tecnológico e o controlo.</p><p>Para os países europeus, isto é especialmente difícil porque a eletrificação exige veículos mais acessíveis. Quando um fabricante chinês oferece um carro elétrico mais barato e, muitas vezes, bem equipado, é politicamente desconfortável dizer que o preço mais baixo pode trazer um custo estratégico mais elevado. Ainda assim, é esse o debate que a Europa não pode evitar.</p><p>A BYD é um risco de segurança?</p><p>Com base na informação pública, não é possível dizer que todos os veículos BYD representem uma ameaça de segurança. Isso seria demasiado simplista e factualmente fraco. Também não é credível afirmar que a BYD é uma fabricante comum e que a sua tabela de preços e as condições da garantia são tudo o que interessa. Isso seria ingénuo.</p><p>A conclusão mais incómoda é que a BYD é uma empresa chinesa tecnologicamente forte num setor estratégico e que os Estados Unidos levantaram agora formalmente uma preocupação de segurança a seu respeito. A empresa nega a designação. A Europa está atualmente mais focada em subsídios e política industrial. O consumidor vê um bom preço. Uma agência de segurança vê dados, software, baterias, fornecedores e a influência potencial do Estado chinês.</p><p>Estas verdades não se anulam entre si. Podem todas ser verdade ao mesmo tempo.</p><p>É isso que torna o caso da BYD difícil. Se a empresa fosse tecnologicamente fraca, a questão seria menos aguda. Se os seus automóveis fossem maus, o mercado resolveria o problema por si. Mas a BYD é suficientemente forte, suficientemente barata e suficientemente rápida no crescimento para que o seu sucesso já não possa ser tratado como uma história puramente comercial.</p><p>O que a Europa deve fazer a seguir</p><p>O problema da Europa é precisar de carros elétricos mais baratos, mas não querer acordar daqui a dez anos e descobrir que os seus dados de mobilidade, as cadeias de abastecimento de baterias e o software dos veículos dependem de um país que descreve como rival sistémico.</p><p>A resposta não pode ser um simples slogan de que todos os carros chineses devem ser proibidos. Isso seria caro, politicamente difícil e provavelmente significaria preços mais altos para os consumidores. Seria igualmente errado fingir que esta é apenas uma questão de mercado livre. Quando um automóvel está ligado, depende de software e troca dados constantemente, faz parte de uma infraestrutura digital muito mais vasta.</p><p>A Europa precisa, pelo menos, de três coisas. Primeiro, deve haver clareza sobre onde os dados dos veículos são recolhidos e processados. Segundo, a contratação de veículos pelo setor público e por infraestruturas críticas deve incluir avaliações de risco que cubram origem, software e acesso remoto. Terceiro, a Europa tem de distinguir entre automóveis de uso privado e veículos usados em funções sensíveis ligadas ao Estado. Um comprador privado pode escolher pelo preço e pelo equipamento. O Estado não se pode dar a esse luxo.</p><p>Há também uma pergunta simples, ainda feita com pouca frequência: que funções do veículo passam pelos serviços cloud do fabricante, que dados são recolhidos, quando são transmitidos e será que alguns serviços ligados podem ser desativados em usos públicos sensíveis? Sem estas respostas, o debate de segurança continua demasiado vago.</p><p>A Europa não precisa de chegar à mesma conclusão política para todos os fabricantes chineses. Mas precisa de regras claras para os dados dos veículos ligados à rede, o software, o acesso remoto e a contratação para infraestruturas críticas. Sem essas regras, as decisões serão ditadas por escândalos individuais, pressão política e etiquetas de preço. É uma forma fraca de gerir uma das mudanças industriais mais importantes da próxima década.</p><p>O sucesso da BYD não vai desaparecer</p><p>A BYD é demasiado grande e tecnologicamente competitiva para que este debate termine com um simples boicote ou slogan político. A empresa continuará a expandir-se na Europa, a construir capacidade de produção mais perto dos clientes e a tentar posicionar-se não como um risco chinês, mas como uma fabricante global. É precisamente isso que torna a história complicada. Os carros da BYD não são produtos caricaturalmente baratos. São veículos genuinamente competitivos.</p><p>Quanto melhores se tornam os carros chineses, maior fica a questão política. Um carro barato e fraco ameaça pouco para além da paciência do seu proprietário. Um carro barato e bom muda o mercado. Um carro barato, bom e ligado à rede pode mudar dependências.</p><p>A lista do Pentágono não prova a culpa da BYD. Mas acaba com o período confortável em que um automóvel elétrico chinês podia ser avaliado apenas pelo preço, pela bateria e pela autonomia. Com a BYD, a Europa tem agora também de perguntar quem está por detrás da tecnologia, a quem serve, em última instância, esse ecossistema e quanto conforto estratégico está disposta a trocar por uma prestação mensal mais baixa.</p>