Honda pode congelar fábrica canadiana de carros elétricos avaliada em 15 mil milhões de dólares canadianos
A Honda está a recuar na América do Norte de uma ofensiva nos carros elétricos para uma aposta reforçada nos híbridos. Segundo o Nikkei Asia, a construtora japonesa prepara uma pausa no desenvolvimento do seu complexo de produção de carros elétricos e baterias em Ontário, avaliado em 15 mil milhões de dólares canadianos, ou cerca de 11 mil milhões de dólares norte-americanos. A marca ainda não o confirmou oficialmente, mas as decisões recentes apontam para uma mudança estratégica clara.
A Honda anunciou o plano para Ontário em 2024. O projeto, perto de Alliston, destinava-se a criar uma cadeia completa de produção de carros elétricos, incluindo montagem de veículos, uma fábrica de baterias e, com parceiros, produção de materiais catódicos e separadores. A capacidade anual prevista era de até 240.000 carros elétricos e 36 GWh de baterias.
A produção deveria arrancar em 2028. O governo federal do Canadá e a província de Ontário prometeram ao projeto cerca de 5 mil milhões de dólares canadianos em apoios, sobretudo através de créditos fiscais e incentivos diretos. O complexo deveria salvaguardar 4.200 postos de trabalho existentes e criar cerca de 1.000 novos.
Um adiamento que agora parece mais sério
A Honda já tinha adiado o projeto em cerca de dois anos, em 2025, citando o abrandamento do mercado de carros elétricos. Agora, o Nikkei Asia avança que a empresa se prepara para congelar o investimento por um período mais longo e colocar os modelos híbridos no centro da sua estratégia norte-americana. Ao mesmo tempo, a Honda Canada disse que não tinha nada de novo a acrescentar.
Esta formulação é relevante. Oficialmente, a Honda ainda não anunciou o cancelamento definitivo do seu megaprojeto no Canadá. Na prática, porém, aumentou o risco de a cadeia de produção inicialmente prevista para 2028 não arrancar na mesma forma nem dentro do mesmo calendário.
A situação no Canadá não é um caso isolado. Em março, a Honda disse que iria cancelar o desenvolvimento e o lançamento de três modelos elétricos previstos para a América do Norte: Honda 0 SUV, Honda 0 Saloon e Acura RSX. A empresa apontou como razões a procura mais fraca por carros elétricos, mudanças políticas nos Estados Unidos e concorrência mais forte de fabricantes chineses.
A Honda estima que a reavaliação da sua estratégia de eletrificação poderá trazer custos e perdas de até 2,5 biliões de ienes. Ao mesmo tempo, a empresa insiste que não está a abandonar por completo os carros elétricos. Está a reafetar recursos e a reforçar a sua gama de híbridos no curto prazo.
Os híbridos parecem de repente a aposta mais segura
O problema da Honda é simples, mas dispendioso. Um complexo industrial de 11 mil milhões de dólares norte-americanos só faz sentido se a procura por carros elétricos crescer de forma rápida e consistente. A América do Norte não oferece atualmente essa certeza. Os compradores continuam a ponderar preço, infraestrutura de carregamento, incentivos e taxas de juro, enquanto os híbridos lhes dão, em muitos casos, uma tecnologia de transição com menos risco.
Para a Honda, trata-se de um recuo estratégico, e não de uma desistência total. A empresa parece agora preferir fluxo de caixa e um negócio de híbridos mais rentável a uma fatura de capital muito pesada nos elétricos. Isso é racional. Mas também enfraquece a posição da Honda se a procura por carros elétricos voltar a acelerar de forma acentuada.
A fábrica canadiana deveria mostrar que a Honda estava preparada para um futuro elétrico a bateria em escala industrial. Para já, poderá antes mostrar algo mais incómodo: em 2026, até os fabricantes automóveis mais disciplinados do mundo já não estão dispostos a construir a próxima era elétrica apenas porque as previsões antigas lhes diziam para o fazer.