Nissan Gravite: Sete Lugares, Zero Emoção
A Nissan sempre oscilou entre o racional e o esquecível. O novo SUV de sete lugares Gravite não tenta fugir a essa imagem; pelo contrário, aprofunda-a ainda mais. Este é um carro para quem faz contas ao espaço em metros cúbicos e lugares por euro, não para quem valoriza dinâmica em curva ou o requinte dos materiais do tablier.
Com o Gravite, a Nissan aponta aos mercados emergentes, onde o tamanho da família pesa mais do que qualquer desejo de aceleração entusiasmante. A praticidade vence. A emoção fica à porta.
Construído para poupar
Debaixo do capot não há vestígios de ambição futurista. O que se encontra é engenharia de outros tempos, quando a injeção eletrónica ainda era novidade. O Gravite assenta na plataforma CMF A+ desenvolvida pela aliança Renault Nissan. A mesma base serve o Renault Triber e o Nissan Magnite, o que diz quase tudo sobre o objetivo do projeto.
A fórmula CMF A+ é um manual de controlo de custos: manter o comprimento abaixo dos quatro metros, esticar a distância entre eixos para maximizar o espaço interior, reutilizar componentes comprovados e garantir que o carro sobrevive em estradas onde o alcatrão é mais sugestão do que realidade.
O Gravite mede cerca de 3987 mm de comprimento, mas a distância entre eixos chega aos 2636 mm para acomodar três filas de bancos. O peso em vazio fica abaixo dos 1000 kg. Essa leveza não é acaso: é a única razão pela qual o motor consegue dar conta do recado.
Os números que contam
O motor é um 1.0 de três cilindros atmosférico, conhecido internamente como B4D. Debita 71 cv (53 kW) às 6250 rpm e um binário máximo de 96 Nm entre as 3400 e as 3600 rpm.
No papel, parece suficiente. Com sete pessoas a bordo, é uma lição de paciência. O progresso assemelha-se mais à deriva continental do que a aceleração. O condutor terá de dialogar frequentemente com a caixa de velocidades.
Há duas opções: manual de cinco velocidades ou automática robotizada de cinco relações (EZ Shift). Nenhuma promete emoção. Ambas garantem manutenção simples e preço baixo.
Espaço acima de tudo
O destaque é óbvio: três filas, sete lugares. O aviso também: a terceira fila serve melhor crianças ou adultos muito flexíveis.
A altura ao solo é generosa, suficiente para enfrentar passeios e estradas irregulares sem receio de danificar o cárter. No interior, dominam plásticos duros e tecidos resistentes. O habitáculo sobrevive a uma excursão de infantário, mas não ganha prémios de design. O apelo visual rivaliza com o de uma parede de betão.
A Nissan não construiu o Gravite para conquistar júris. Fez-no para satisfazer folhas de cálculo. Em muitos países asiáticos e noutras regiões em desenvolvimento, a procura por transporte acessível e espaçoso mantém-se firme. Com rivais como Mitsubishi e Suzuki a oferecerem caixas sobre rodas semelhantes, a Nissan não pode ficar de fora.
Porque a Europa não o verá
A estratégia assenta numa otimização de custos sem piedade. Os componentes existentes fazem o trabalho pesado. Sistemas avançados de assistência ao condutor só aparecem se a lei obrigar. A facilidade de manutenção vale mais do que ecrãs digitais.
Esta abordagem choca com as normas de segurança da União Europeia, tornando a homologação complexa ou demasiado cara. No Norte da Europa, espera-se bancos aquecidos, controlo de estabilidade e um arsenal de ajudas eletrónicas, não apenas um tejadilho e quatro portas.
Por cá, o equivalente mais próximo é o Dacia Jogger. Segue o mesmo conceito de transporte acessível para sete, mas cumpre as regras europeias e apresenta-se muito mais moderno.
Honesto, mas pouco inspirador
A física e a economia não fazem cedências. Um preço baixo tem sempre custos. No caso do Nissan Gravite, o preço é a ausência de emoção e de sofisticação tecnológica.
É uma máquina honesta para quem precisa de espaço acima de tudo. Para quem vem de uma mota ou anda a pé, pode até parecer luxo. Para todos os outros, é apenas aquilo para que foi criado: uma ferramenta.